A IA que veio para o Natal
Jogos em família ou como evitar discutir política no fim do ano
Dezembro de 2024 chegou com décimo terceiro, fim de período na universidade e uma questão que toda professora conhece: o que dar de presente para a família sem esvaziar os cofres e sem desprestigiar ninguém. Nos anos anteriores já havia distribuído biscotti, receita de uma amiga italiana. Dessa vez, enquanto encerrava o semestre e colhia os primeiros resultados dos jogos didáticos que havia criado para as minhas turmas, tive uma ideia melhor, ou pelo menos mais ambiciosa: usar o que havia aprendido na sala de aula para fazer os presentes de Natal. Era a desculpa perfeita para aprofundar a metodologia, testar a geração de imagens com IA e, de quebra, garantir que a noite de Natal tivesse alguma coisa mais interessante para fazer do que entrar em assuntos em que o acordo nunca é alcançado.
Sou uma arquiteta que transicionou para o design gráfico e fiz parte da geração que colecionou papéis de carta e jogou Master nas férias de verão. O design gráfico na minha vida veio antes como prática do que como conhecimento organizado: comecei nesse caminho fazendo apresentações de projeto no escritório do Ruy Rezende. Quando decidi tomar outro rumo e estudar cinema, no início dos anos 2000, traduzi minha prática intuitiva de design e meu amor por livros em profissão. Comecei com apresentações de projetos para teatro, para daí partir para o design de divulgação desses espetáculos. Trabalhei com diretores, companhias, atores em seus projetos solo e também gente da música e da comunicação. Ao me tornar professora em 2014 vinha com essa bagagem e os estudos no meu mestrado na ESDI, onde pela primeira vez tive contado com a teoria. Uma prática avant la lettre.
Sou de fazer e ir descobrindo fazendo e com a IA não foi diferente. Comecei com os slides, usando Gemini e Gamma, parti para os áudios com roteiro gerado pelo mesmo Gemini e voz do ElevenLabs, para então desembocar nos jogos. Se para os áudios o motor foi a turma de História da Arquitetura — com volume de conteúdo que pedia reforço —, para os jogos a razão foi a turma de Tipografia. Em outro texto conto essas histórias com mais detalhe. O que importa aqui é que cheguei ao Natal de 2025 com o conhecimento de como estruturar perguntas, montar cartas e imprimir um jogo funcional por menos de quarenta reais a unidade.
Com esse know-how em mãos, fui fazer minhas experiências. Já havia descoberto o recurso do quiz do Gemini, em que a ferramenta monta uma interface de perguntas e respostas sobre qualquer tema, com níveis de dificuldade e estilo de perguntas manejados via prompt. Numa visita do Francisco, sobrinho querido, ficamos especulando sobre temas que interessavam a ele e chegamos no futebol. Lembrei de um jogo chamado Type or Cheese, em que a brincadeira é adivinhar se o nome pronunciado é uma tipografia ou um queijo. A lógica era a mesma: criamos o Cidade ou Time?, com nomes de cidades e times brasileiros que se confundem alegremente. O teste como quiz rendeu boas risadas e resolvi montar como jogo de cartas impresso.
Já tinha feito as cartas do Tipogame usando o Gemini para estruturar as perguntas, mas a transposição para o InDesign ainda era lenta, copiando e colando uma a uma. Perguntei à própria IA como automatizar o processo e ela me apresentou o data merge: um recurso que distribui as informações de uma planilha a partir de um único layout de carta, com o design da página nos parâmetros da gráfica rápida. Desenhei frente e verso, escolhi cores e padrões — e atinei que aquilo tudo precisava de uma embalagem. Para ilustrar sem sobrecarregar o Flavio — marido e ilustrador dos meus projetos inventados — resolvi testar prompts no Midjourney e no Nano Banana até chegar a resultados que me interessavam visualmente. Não virei especialista em geração de imagens, mas para os jogos de Natal funcionou muito bem.
Do Cidade ou Time?, pensado para os meninos e seus avôs boleiros, parti para o outro público da família: as meninas menores. Com idades entre quatro e sete anos, apostei na fofura e fiz um jogo da memória com princesas Disney em versão bebê, ilustradas em aquarela. Rápido, bonito e agradou em cheio — incluindo as mães, igualmente encantadas. Para as moças dorameiras e kpopeiras da família, grupo em que me incluo, criei um quiz chamado Hallyu Master, com caixinha ilustrada com IA. Ainda houve um que não chegou a ser produzido — The Fifth Beatle, para o cunhado e sobrinhas que moram em Londres. Esbarrou nos custos e no tempo de envio, mas está guardado para uma próxima visita.
Por se tratar de presentes informais, não houve preocupação rigorosa com direitos autorais — as princesas e os Beatles ficaram de fora da revisão crítica que aplico nos materiais didáticos. As perguntas também foram menos curadas do que o habitual, mais abertas ao que a rede oferece, o que as deixou mais sujeitas a erros. Revisei sem o rigor de sala de aula e funcionou para o que eram: uma brincadeira organizada com carinho.
No fim, a família se divertiu. Os adolescentes jogaram o Cidade ou Time? com os avôs. As meninas pequenas adoraram as princesas bebê. As dorameiras levaram o Hallyu Master para casa. E ninguém ficou preso numa discussão que nenhuma quantidade de biscotti conseguiria resolver. Os jogos couberam no orçamento magro, saíram das mesmas práticas que uso em sala de aula e me ensinaram coisas que ainda estou aplicando. Às vezes o melhor laboratório é a própria família.
Este texto inaugura uma série de reflexões pessoais sobre o uso de inteligências artificiais na minha rotina como professora de Design e Arquitetura. No próximo dia 15 falo mais sobre como a mesma metodologia surgiu para a sala de aula — e o que aconteceu quando 70% da turma decidiu jogar.


Excelente... instigador.